sexta-feira, 22 de outubro de 2010

VERBO TRANSITIVO

Mudam as estações
Transmutam as emoções
Muda a temperatura
O aspecto, o espectro e a brandura
Transfiguram os tons e os dons
Mudam os prumos e rumos
Ramificam as vias e as trilhas
Mudam, repentinas as setas e as metas
Mudam as dores de amores
Mudam os odores e os sabores
Minha língua muda
Espanto!

...Substituem as células
Os desejos que embalam as vísceras
Recombinam moléculas
Rearranjam as possibilidades
Mudam o verbo e as intenções
Flexionam a pessoa e as sensações
Mudam o número, o tempo e o modo
Inevitavelmente, a vida é Verbo Transitivo  

Fernanda Reis
Outubro/2010

domingo, 26 de setembro de 2010

Felicidade Clandestina (Conto original)


Ela era gorda, baixa, sardenta e de cabelos excessivamente crespos, meio arruivados. Tinha um busto enorme, enquanto nós todas ainda éramos achatadas. Como se não bastasse enchia os dois bolsos da blusa, por cima do busto, com balas. Mas possuía o que qualquer criança devoradora de histórias gostaria de ter: um pai dono de livraria.
Pouco aproveitava. E nós menos ainda: até para aniversário, em vez de pelo menos um livrinho barato, ela nos entregava em mãos um cartão-postal da loja do pai. Ainda por cima era de paisagem do Recife mesmo, onde morávamos, com suas pontes mais do que vistas. Atrás escrevia com letra bordadíssima palavras como “data natalícia” e “saudade”.
Mas que talento tinha para a crueldade. Ela toda era pura vingança, chupando balas com barulho. Como essa menina devia nos odiar, nós que éramos imperdoavelmente bonitinhas, esguias, altinhas, de cabelos livres. Comigo exerceu com calma ferocidade o seu sadismo. Na minha ânsia de ler, eu nem notava as humilhações a que ela me submetia: continuava a implorar-lhe emprestados os livros que ela não lia.
Até que veio para ela o magno dia de começar a exercer sobre mim uma tortura chinesa. Como casualmente, informou-me que possuía As reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato.
Era um livro grosso, meu Deus, era um livro para se ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o. E completamente acima de minhas posses. Disse-me que eu passasse pela sua casa no dia seguinte e que ela o emprestaria.
Até o dia seguinte eu me transformei na própria esperança da alegria: eu não vivia, eu nadava devagar num mar suave, as ondas me levavam e me traziam.
No dia seguinte fui à sua casa, literalmente correndo. Ela não morava num sobrado como eu, e sim numa casa. Não me mandou entrar. Olhando bem para meus olhos, disse-me que havia emprestado o livro a outra menina, e que eu voltasse no dia seguinte para buscá-lo. Boquiaberta, saí devagar, mas em breve a esperança de novo me tomava toda e eu recomeçava na rua a andar pulando, que era o meu modo estranho de andar pelas ruas de Recife. Dessa vez nem caí: guiava-me a promessa do livro, o dia seguinte viria, os dias seguintes seriam mais tarde a minha vida inteira, o amor pelo mundo me esperava, andei pulando pelas ruas como sempre e não caí nenhuma vez.
Mas não ficou simplesmente nisso. O plano secreto da filha do dono de livraria era tranqüilo e diabólico. No dia seguinte lá estava eu à porta de sua casa, com um sorriso e o coração batendo. Para ouvir a resposta calma: o livro ainda não estava em seu poder, que eu voltasse no dia seguinte. Mal sabia eu como mais tarde, no decorrer da vida, o drama do “dia seguinte” com ela ia se repetir com meu coração batendo.
E assim continuou. Quanto tempo? Não sei. Ela sabia que era tempo indefinido, enquanto o fel não escorresse todo de seu corpo grosso. Eu já começara a adivinhar que ela me escolhera para eu sofrer, às vezes adivinho. Mas, adivinhando mesmo, às vezes aceito: como se quem quer me fazer sofrer esteja precisando danadamente que eu sofra.
Quanto tempo? Eu ia diariamente à sua casa, sem faltar um dia sequer. Às vezes ela dizia: pois o livro esteve comigo ontem de tarde, mas você só veio de manhã, de modo que o emprestei a outra menina. E eu, que não era dada a olheiras, sentia as olheiras se cavando sob os meus olhos espantados.
Até que um dia, quando eu estava à porta de sua casa, ouvindo humilde e silenciosa a sua recusa, apareceu sua mãe. Ela devia estar estranhando a aparição muda e diária daquela menina à porta de sua casa. Pediu explicações a nós duas. Houve uma confusão silenciosa, entrecortada de palavras pouco elucidativas. A senhora achava cada vez mais estranho o fato de não estar entendendo. Até que essa mãe boa entendeu. Voltou-se para a filha e com enorme surpresa exclamou: mas este livro nunca saiu daqui de casa e você nem quis ler!
E o pior para essa mulher não era a descoberta do que acontecia. Devia ser a descoberta horrorizada da filha que tinha. Ela nos espiava em silêncio: a potência de perversidade de sua filha desconhecida e a menina loura em pé à porta, exausta, ao vento das ruas de Recife. Foi então que, finalmente se refazendo, disse firme e calma para a filha: você vai emprestar o livro agora mesmo. E para mim: “E você fica com o livro por quanto tempo quiser. ”Entendem? Valia mais do que me dar o livro: pelo tempo que eu quisesse ” é tudo o que uma pessoa, grande ou pequena, pode ter a ousadia de querer.
Como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada, e assim recebi o livro na mão. Acho que eu não disse nada. Peguei o livro. Não, não saí pulando como sempre. Saí andando bem devagar. Sei que segurava o livro grosso com as duas mãos, comprimindo-o contra o peito. Quanto tempo levei até chegar em casa, também pouco importa. Meu peito estava quente, meu coração pensativo.
Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre iria ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar… havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada.
Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo.
Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante.

FELICIDADE CLANDESTINA (PERSPECTIVA DA “VILÔ) Adaptação do conto de Clarice Lispector

Eu era gorda, baixa, sardenta e de cabelos excessivamente crespos, meio arruivados. Tinha bustos enormes que eram motivo de riso alheio, decididamente eu não figurava entre as meninas mais populares. Muito pelo contrário, era sempre deixada de lado nas brincadeiras, ninguém me queria por perto. As outras eram imperdoavelmente bonitinhas, esguias, altinhas, de cabelos livres. Não me encaixava em padrões de beleza, não tinha grandes atrativos a não ser o fato de meu pai ser um dono de livraria, de poder comprar aquilo que quisesse e de morar em uma casa espaçosa e confortável. E tal coisa para as outras meninas era motivo de grande interesse e valia.  Por isto não tinha amigos, não queria que se aproximassem de mim por interesse, queria ser levada em conta, que minhas idéias fossem ouvidas, que minha presença tivesse algum valor, que fosse chamada pras brincadeiras, que tivesse um instante de felicidade, esta clandestina que morava em todas as casas, menos na minha.
Como disse, meu pai tinha uma livraria e se voltava tanto para os afazeres do trabalho, que nunca tinha tempo para mim, por isto fui aprendendo a odiar os livros, pois eram eles na minha cabeça os culpados por meu pai não me dar a atenção e o carinho que eu tanto sentia falta. Minha mãe se considerava linda, já havia ganhado inclusive concursos de beleza quando jovem. Acho que tinha vergonha de mim, por ser diferente dela. A genética não me ajudou, mas não deixava de ser uma menina, queria tudo que as outras da minha idade poderiam querer: brincadeiras, atenção, e acima de tudo ser importante para alguém.
Crescia dentro de mim uma mágoa muito grande, como um câncer que entranhado disseminava suas raízes envolvendo-me cada vez mais em uma teia de ódio e desprezo pelo outro. Este outro que era meu algoz, meu inferno, que me subjugava, que só se aproximava quando possuía terceiras intenções.
Carregava balas nos bolsos da blusa só pra mostrar que podia tê-las, chupava uma a uma com barulho, fazendo questão de deixar as outras morrendo de vontade, chegava a colocar umas cinco balas na boca de uma única vez, com uma ânsia feroz, como que para preencher este vazio que carregava, este buraco que ansiava por afeto pra ser tamponado.
Adorava quando chegava os aniversários ou o final do ano só pra eu distribuir meus cartões postais pras meninas de minha escola. Coitadinhas, deviam estar esperando algum livro, mas não as dava. Os cartões eram do Recife mesmo, com suas pontes mais do que vistas e no verso eu bordava palavras como data natalícia e saudade. Como era bom ter meu instante de soberania, era minha forma de dizer àquelas meninas que eu tinha um poder enorme. Pena que eu mesma não acreditasse nisto! Eu seria tão feliz se pudesse ser diferente do que era, se fosse aceita, amada, enxergada, se tivesse amizades sinceras, se fosse querida por minha família. Mas isto era sonho e sonhos são pra gente fraca e idiota.
Na minha escola tinha uma loirinha que adorava me pedir livros emprestados. Eu sempre arrumava alguma desculpa e nunca satisfazia seu desejo. Certa vez comentei com ela sobre um livro que papai havia me dado de aniversário chamado As Reinações de Narizinho. Os olhos da menina ficaram cheios de uma luz irritante, como quem é tocado por algo extraordinário. Mal sabia ela que eu nem havia lido o tal livro e que não tinha a mínima intenção de emprestá-lo. Odiava estes presentes óbvios de meu pai. Por que não me levava pra passear num parque? Por que não saia comigo em uma pequena viagem? Sempre trabalhando e sempre me esquecendo de lado. Maldita livraria que o escravizava!
Voltando à menina do olhar iluminado, foi delicioso detectar tamanha ansiedade por ler o meu livro de Monteiro Lobato. Disse a ela que passasse por minha casa no dia seguinte que eu o emprestaria. A pobre garota saiu saltitante pela rua como se aquele livro fosse a coisa mais linda do mundo. As pessoas às vezes valorizam coisas tão estranhas. Não consigo entender, mas me satisfez muito saber que algo tão tolo pudesse ter surtido efeito tão estimulante naquela loirinha sem graça.
No dia seguinte lá estava ela na porta de minha casa, toda eufórica e esbaforida. Virei para ela calmamente e disse que havia emprestado o livro a outra menina, e que ela voltasse no dia seguinte para buscá-lo. Ficou boquiaberta e saiu devagar, mas logo estava pulando pelas ruas de novo, com certeza devia estar imaginando que amanhã finalmente teria o livro para si. Quanta ingenuidade queria ver até quando iria durar aquela esperança toda. Como era bom vingar toda a minha tristeza, decepção e frustração naquela bobinha aloirada. Eu precisava de válvulas de escape e ela estava sendo de grande valia para mim. Sei bem que com toda a certeza ela devia rir de mim pelas costas, só vinha até minha casa interessada no livro, mal podia desconfiar que nunca o teria.
No dia seguinte ao vê-la à minha porta eu disse: o livro ainda não está comigo, volte amanhã. No próximo falei que esteve comigo por toda a tarde de ontem, mas como ela só havia vindo pela manhã acabei emprestando-o a outra garota. E assim foi, dia a dia a pobre vinha à minha porta. Seus olhos já estavam fundos, por certo devido às noites mal dormidas a esperar pelo livro. Me perguntava: até quando ela agüentaria? E como era insistente e perseverante esta menina!
Até que um dia, quando eu estava à porta de minha casa, recusando mais uma vez meu livro para aquela criaturinha humilde e silenciosa, apareceu minha mãe. Ela devia estar estranhando a aparição muda e diária daquela menina à porta de nossa casa. Eu devia ter sido mais esperta na arquitetura de meu plano de vingança. Pediu explicações a nós duas. Houve uma confusão silenciosa, entrecortada de palavras pouco elucidativas, eu tentando desconversar, imaginando que minha mãe não iria gostar nem um pouco daquilo que estava fazendo.  Ela indagava à menina e achava cada vez mais estranho o fato de não estar entendendo o que se passava. Até que a maldita se fez entender. Minha mãe voltou-se para mim e com enorme surpresa exclamou: mas este livro nunca saiu daqui de casa e você nem quis ler! Me fiz de desentendida e disse que havia lido sim e que sempre o estava emprestando para outras colegas. Mas ela não é boba, sempre vai ao meu quarto pelas manhãs e foi categórica ao afirmar que o livro sempre esteve guardado na terceira gaveta de minha escrivaninha.
Me olhava como se tivesse feito uma descoberta horrorizada da filha que tinha. Faça-me o favor, ela sequer se interessava pelo meu mundo, sempre envolta com suas fotos e vídeos da juventude como se estivesse presa no passado. Eu não tinha importância nenhuma pra ela. Aquele livro grosso do Monteiro Lobato esse sim, era mais valioso que sua própria filha. Ela voltou-se para mim e disse firme que deveria emprestar o livro agora mesmo. E para menina loura em pé na porta: "E você fica com o livro por quanto tempo quiser." Entendem? Pra mim aquilo era uma humilhação absurda, vocês não imaginam a cara de felicidade daquela pirralha quando minha mãe anunciou que ficasse com o livro pelo tempo que quisesse. Me senti derrotada pela vida, minha mãe me olhando com olhos ferozes de ressentimento, assombro e desprezo e a loirinha andando abraçada com o livro apertado ao peito, como se tivesse em seus braços não um livro, mas um amante. Talvez naquele momento experimentasse uma felicidade clandestina!
Eu por minha vez, fui pro meu quarto, tranquei a porta, abracei meu travesseiro e me pus a chorar...


Este texto foi produzido por mim em exercício cênico no curso de teatro que faço...

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Viajar

“Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos, e não simplesmente como é ou pode ser; que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver”
Amyr Klink, em Mar Sem Fim

quinta-feira, 1 de julho de 2010

FAUSTO (S!)

Tive o privilégio de assistir a peça Fausto(s!) da  Preqaria Cia de Teatro, indicada por meu colega de "In Cena", André! A peça foi encenada no espaço 104 na Praça Raul Soares (diga-se de passagem, um lugar muito bacana, que possibilita muita versatilidade teatral). Foi um mergulho mágico no universo da perdição humana! Percebi nos corredores, escadas, penumbras, grades, cadeiras, passarelas, janelas, pedestais e palcos, como somos  muitas vezes escravizados pelo sistema e constatei sobretudo o mais ridículo disso: somos nós mesmos que alimentamos a máquina para que esta nos escravize e nos devore como ferrugem lenta e constante. Gosto pelo sofrimento? Masoquismo gratuito? Que buraco é este que carregamos no peito que não há nada neste bendito mundo que tampone? O "diabo" tem muito pouco poder frente as nossas humanas malvadezas e sandices. Vendemos nossa alma por tão pouco, somos tão artificiais e artificializáveis! Um bando de idiotas influenciados, escrevendo muito mal o próprio destino! Barganhamos nossa alma a cada dia! Todo amanhecer, nosso abrir de olhos nos convida a mais uma escolha errada, e o pior é que quase sempre aceitamos o convite! 
Segue abaixo um trecho do texto presente no encarte da peça:
"Com “Fausto” o coletivo (Preqaria Cia de Teatro, Cia do Chá de Teatro e artistas convidados) se propõe radicalizar a busca existencial através da investigação de uma das pulsões primeiras do ser humano – o desejo. Nas palavras de Fausto, Goethe atribui ao demônio a chama desse fogo: “Ele criou em mim um fogo vivo que me atraí para todas as imagens da beleza. Assim me sinto transportado do desejo ao prazer e, em pleno prazer, anseio pelo desejo”. Na opinião desse coletivo essa é uma característica de todo ser humano: “no auge do prazer, anseia pelo desejo”, acaba de conquistar algo e já está pensando na próxima conquista. Isso é humano, embora Fausto atribua essa falculdade ao demônio, ela é humana, e é, de certa forma, o motor do mundo e ao mesmo tempo a sua maneira de auto-destruição. Nesse sentido todos fizeram o pacto e todos são Fausto".

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Confusão TPM (Tensão pré-mestrado)





Confuso com tanta informação, tantas decisões, responsabilidades, medos, incertezas, controles, cobranças, culpas, esperanças, delírios...

sábado, 19 de junho de 2010

Julgamento


Julgar não é sentenciar, acho impossível não criar uma impressão dos outros, mas devemos todos ter consciência que perfeição não existe em nós e nem em ninguém.
Minha cabeça pensa a mil por hora e estou sempre avaliando e quando olho para mim mesmo, vejo que às vezes cobro semelhança e ainda bem que ninguém é igual ao outro ou esse mundo seria a coisa mais chata.
Quando julgo não finalizo, deixo a porta aberta porque invariavelmente eu me engano ou exagero e não sou melhor que ninguém. (Yahoo respostas)

A espreita

Adorei esta foto! rsrsrsrs

Preconceito assumido

Chegou a época das cornetas, vuvuzelas e rojões enfurecidos. Copa do mundo!! E eis que nosso Brasil celeste se “encanta” tal qual Alice no País das Maravilhas. Ruas são pintadas, bandeirolas e bandeiras enfeitam as casas dos cidadãos brasileiros. Somos "quase todos" tomados por um patriotismo apaixonado que nos faz amar nossa Pátria varonil com todo o nosso afinco, com toda a nossa torcida.
E começa mais uma partida: enquanto isto, por aqui tudo para, nada mais funciona, todas as atenções se voltam para nossas "caixinhas mágicas". Pessoas são liberadas de seus trabalhos para assistirem ao esperado "espetáculo" de nosso País. Nas mansões, apartamentos, casas, casebres, abrigos, butecos e ruas as pessoas comungam do mesmo sentimento de apreensão e gratidão por cada gol realizado. Em dia de jogo, tudo é motivo de festa, de comemoração. Fumaças quase figuram um código que anuncia que tem mais uma carninha sendo assada ali, cerveja nas geladeiras e copos (pra quem pode é claro). 
Me causa um incômodo absurdo tanta euforia, tanto patriotismo instantâneo, abobalhado. Futebol figura entre as coisas que não gosto e não entendo. Tampouco faço questão de entender. Prefiro negativizá-lo, pois tenho nele um fenômeno de massa completamente alienador, que causa dependência e delírio semelhantes a uma droga.
Na verdade eu nem sei o que eu odeio mais na copa do mundo. Se é o futebol em si, se são os barulhos insuportáveis, se são as pessoas que acham absurdo eu não gostar dessa merda ou se é o fato da obrigatoriedade de ser nacionalista.
Vivemos em um país cheio de problemas. Desigualdade social, políticos corruptos, impostos criminosos, violência, falta de educação, de gentileza, de solidariedade. Pessoas vivem na absoluta miséria, passam fome, não tem acesso a educação, não integram essa sociedade de consumo que escraviza, não tem seus direitos humanos respeitados. Colocar esse pedaço de pano chamado bandeira em nossas portas não faz nada melhorar. Ou faz?
Sei que fui provocativo, sei que o assunto é polêmico, mas o blog é pra isto também. Levantar discussões, criar pequenas contendas, incomodar, propor reflexões.
Recentemente fui a uma festa junina com meus pais onde a fantasia era obrigatória. Tínhamos duas opções: De jeca ou de torcedor do Brasil. Fui de jeca mesmo!! rsrsrsrsrs!!
A propósito: -Em outubro próximo temos eleição. Quais serão os novos babacas que vamos colocar no poder?

terça-feira, 15 de junho de 2010

Relacionamento afetivo (texto produzido em outubro de 2005)

É fato que relacionar-se é algo quase inerente ao ser humano, pois o mesmo precisa de interação para sentir-se parte do todo. O crescimento dos indivíduos condiciona-se em grande parte à troca mútua que é diariamente realizada com as pessoas que os rodeiam.
Quanto mais estreito se torna o laço de união entre as pessoas, mais complexa tende a ser a relação, talvez por isto os enamorados tenham tantas dificuldades em manter um convívio harmonioso. As brigas e desentendimentos são na sua maioria causados pela dificuldade em lidarmos com a diferença. Diferença esta que muitas vezes é muito mais igualitária do que possamos constatar em uma primeira avaliação, já que frequentemente odiamos no outro características que também estão presentes em nossa personalidade. Quase sempre o companheiro (a) serve de espelho para que possamos enxergar algumas de nossas limitações, e como na grande maioria das vezes não estamos preparados ou dispostos a lidar com a constatação destas dificuldades, agimos com agressividade e aversão, distanciando de nós aquele que nos faz entrar em contato com quem verdadeiramente somos.
Existe na grande maioria dos relacionamentos amorosos uma forte necessidade de controle e domínio a serem exercidos por ambas as partes envolvidas. O sujeito precisa por motivos quase sempre egoístas fazer com que o outro perceba que sua leitura da realidade é a mais correta e verdadeira. Este tipo de comportamento denota quase sempre baixa auto-estima e insegurança, já que a precisão de comando traduz muitas vezes, nossa necessidade de sermos aceitos, mesmo que para isto careçamos nos impor perante o outro. Esta atitude de imposição e obrigação gera quase sempre repulsa e hostilidade entre o casal, desgastando assim a construção edificada.
Sabemos que por sermos indivíduos singulares, somos dotados de particularidades distintas. Cada um de nós possui dentro de uma relação afetiva suas próprias expectativas e modelos pré-determinados do que seria a perfeição ou pelo menos algo próximo disto. Quando frustrados somos muitas vezes guiados por condutas encolerizadas e destrutivas. Por isto torna-se importante a auto-vigília, somente desta maneira podemos nos tornar mais atentos para que nossos comportamentos não ponham a perder a relação na qual estamos inseridos. Nossa consciência quando aguçada, nos permite a percepção de nossos erros e claudicações.
De acordo com nossas escolhas, caso queiramos levar adiante nossos relacionamentos, precisamos procurar enxergar em cada discussão qual é a parcela que nos cabe dentro do problema, e qual a insegurança que nos move a agirmos de maneira muitas vezes incoerente e ditatória. Também o entendimento dos possíveis motivos para as reações do outro durante uma contenda é muito importante, pois nos possibilita uma intervenção mais carinhosa e compreensiva. Portanto percebemos que é preciso intenalizar a idéia que se relacionar nem sempre é fácil, exigindo dos envolvidos maturidade para compreender e aceitar o outro tal qual ele é, com seus defeitos e qualidades, enxergando nele antes de tudo um grande contribuidor para nosso crescimento e desenvolvimento pessoal.
A afetividade ampliada dentro de um relacionamento amoroso é de grande valia para que nos sintamos mais fortes em nosso caminhar. O companheirismo e a parceira adquiridos criam condições para uma existência mais plena e feliz.


Frase de um domingo frio

No último domingo li uma frase da Psicanalista Regina Teixeira da Costa no Jornal Estado de Minas que mexeu muito comigo, pois cada vez mais tenho percebido que o verdadeiro amor só pode ser construído com bases e alicerces reais, nunca idealizados e imaginários. A frase é a seguinte: "O amor capaz de tolerar a incompletude, a imperfeição, a diferença neste dá pra acreditar".  

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Ana Carolina de vestido





Como a maioria sabe, sou fã de Ana Carolina. Adoro sua voz, sua música, seu talento. Achei inusitada, engraçada e sexy esta foto da Ana de vestido e salto alto. A faceta feminina de Ana tirando sarro da nossa cara! E que belo par de pernas a moça tem!!! 

O Batizado - Rubem Alves


Sérgio, meu filho, me fez um pedido estranho. Pediu-me que preparasse um ritual para o batismo da Mariana, minha neta. Eu lhe disse que, para se fazer tal ritual, é preciso acreditar. Eu não acredito. Já faz muitos anos que as palavras dos sacerdotes e pastores se esvaziaram para mim, muito embora eu continue fascinado pela beleza dos símbolos cristãos, desde que sejam contemplados em silêncio.
Ele não desistiu e argumentou: “Mas você fez o meu casamento.“ De fato. Lembro-me de como ele encomendou o ritual: “Pai, não fale as palavras da religião! Fale só as palavras da poesia!“ E assim foi. Foram textos do Cântico dos Cânticos, poema erótico da Bíblia, que deixa ruborizadas as faces dos beatos e beatas: “Teus dois seios são como dois filhos gêmeos de gazela! Teus lábios gotejam doçura, como um favo de mel, e debaixo da tua língua se encontram néctar e leite...“ Divirto-me pensando na cara que fariam Papa e bispos se lessem esses textos... Seguiram-se textos do Drummond, do Vinícius, da Adélia - tudo terminando não com a chatíssima Marcha Nupcial, mas com a Valsinha, do Chico, ocasião em que os convidados, moços e velhos, pegaram os seus pares e trataram de dançar. Foi bonito. Quando a coisa é bonita a gente acredita fácil.
Lembrei-me, então, de um trecho do livro Raízes negras - onde se descreve o ritual de “dar nome“ ao recém-nascido, numa tribo africana.
Omoro, o pai, moveu-se para o lado de sua esposa, diante das pessoas da aldeia reunidas. Levantou então a criança e, enquanto todos olhavam, segredou três vezes nos ouvidos do seu filho o nome que ele havia escolhido para ele. Era a primeira vez que aquele nome estava sendo pronunciado como nome daquele nenezinho. Todos sabiam que cada ser humano deve ser o primeiro a saber quem ele é. Tocaram os tambores. Omoro segredou o mesmo nome no ouvido de sua esposa, que sorriu de prazer. A seguir foi a vez da aldeia inteira: “O nome do primeiro filho de Omoro e Binta Kinte é Kunta!“ Ao final do ritual, após desenvolvidas todas as suas partes, Omoro, sozinho, carregou seu filho até os limites da aldeia e ali levantou o nenezinho para os céus e disse suavemente: “Fend kiling dorong leh warrata ke iteh ted“:“Eis aí, a única coisa que é maior que você mesmo!“
Essa memória me convenceu e tratei de inventar um ritual de “dar nome“, já que nenhum eu conhecia que me agradasse.
Organizei o espaço do living. Empurrei a mesa central, baixa, na direção da lareira. À cabeceira coloquei um banquinho velhíssimo - ali a Mariana se assentaria. Ao lado, duas cadeiras, uma para o pai, outra para a mãe. Na ponta da mesa, uma grande vela. É a vela da Mariana, vela que a acompanhará por toda a sua vida, e que deverá ser acesa em todos os seus aniversários. Ao lado da sua vela, duas velas longas, coloridas. E, espalhadas pela sala, velas de todos os tipos e cores. Na ponta da mesa, ao lado da vela da Mariana, um prato de madeira com um cacho de uvas.
Reunidos todos os convidados, começou o ritual. Foi isso que eu disse: “Mariana: aqui estamos para contar para você a estória do seu nome. Tudo começou numa grande escuridão.“ As luzes se apagaram enquanto, no escuro, se ouvia o som da flauta de Jean Pierre Rampal.
“Assim era a barriga da sua mãe, lugar escuro, tranqüilo e silencioso. Ali você viveu por nove meses. Passado esse tempo você se cansou e disse: ‘Quero ver luz!‘ Sua mãe ouviu o seu pedido e fez o que você queria. Ela ‘deu à luz‘. Você nasceu.“
A mãe e o pai da Mariana acenderam então a vela grande, que brilhou sozinha no meio da sala.
“Veja só o que aconteceu! Sua luz encheu a sala de alegria. Todos os rostos estão sorrindo para você. E, por causa desta alegria, cada um deles vai, também, acender a sua vela.“
Aí o padrinho e a madrinha acenderam as velas longas coloridas, e os outros todos acenderam, cada um, uma das velas espalhadas pela sala.
À chegada dos convidados eu havia dado a cada um deles um cartãozinho, onde deveriam escrever o desejo mais profundo para a Mariana. Continuei:
“Você trouxe tanta alegria que cada um de nós escreveu, num cartãozinho, um bom desejo para você. Assim, pegue esta cestinha. Vá de um em um recolhendo os bons desejos que eles escreveram. Esses cartõezinhos, você os vai guardar por toda a sua vida...“
E lá foi a Mariana com a cestinha, seus grandes olhos azuis, de um em um, sendo abençoada por todos.
“Todos deram para você uma coisa boa“, eu disse depois de terminado o recolhimento dos cartões. “Agora é a hora de você dar a todos uma coisa boa. Você é redondinha e doce como uma uva. Esta é a razão para este cacho de uvas. E é isso que você vai fazer. Seus padrinhos vão fazer uma cadeirinha e você, assentada na cadeirinha, vai dar a cada um deles um pedaço de você, uma uva doce e redonda...“
E assim, vagarosamente, a Mariana celebrou, sem saber, esta insólita eucaristia: “Esta uva doce e redonda é o meu corpo...“
Terminada a eucaristia, eu disse à Mariana:
“Agora, chegando ao fim, cada um de nós vai dizer o seu nome. Preste bem atenção. O nome é um só. Mas cada um vai dize-lo com uma música diferente. Porque são muitas e diferentes as formas como você é amada.“
E assim, iluminados pela luz das velas, cada um dos presentes, olhando bem dentro dos olhos da menina, ia dizendo: “Mariana“, “Mariana“, “Mariana“, “Mariana“...
Aqueles que olhavam os olhos da Mariana puderam ver que, à medida que ela ouvia o seu nome sendo repetido, eles iam se enchendo de lágrimas...

Relações empobrecidas

Crio um blog, mas me questiono: - Estarei imensamente preso à teia da informática? Será que estou dando o devido valor às minhas relações reais? Escutando as histórias de meus amigos, acessando suas memórias afetivas olho no olho, procurando-os com a merecida dedicação, disponibilizando-me dentro de minhas limitações a ouví-los com os ouvidos do coração?
Vejo que nos dias de hoje, as pessoas tem cada vez mais se afastado das relações palpáveis, encarnadas, táteis. Todos nos enfurnamos no pseudo-conforto de nossos lares e estabelecemos cada vez mais uma intimidade com a tecnologia, enquanto o "ideal" seria que fossem estabelecidos contatos mais humanos, mais vívidos, mais calorosos. Sinal dos tempos? Talvez! Entretanto, percebo que não é possível retroceder, as relações mudam com o passar do tempo. A Internet vem como uma nova possibilidade de interação entre as pessoas, encurtando distâncias, tornando "presentes" amigos que por alguma razão não se encontram ao alcance de nosso olhar.
Os orientais é que estão com a razão: "O CAMINHO DO MEIO". Equilíbrio! Podemos usar da tecnologia sem sermos usados por ela. Podemos e devemos nos dedicar aos nossos encontros reais com momentos para nos destinarmos ao novo, sem nos amedrontarmos e sem crucificarmos a modernidade. A tecnologia a serviço da humanidade! Sem escravidão podemos e devemos aproveitar maneiras diferenciadas de interação, lembrando-nos sempre que atrás da máquina existe um ser humano, que tecla e que navega, mas que também sente, ama, anseia...


Texto de Adriano Garib


Adriano Garib é um ator magnífico e um poeta sublime! Tive a oportunidade de "conhecê-lo" em uma peça da Cia de Teatro Autônomo que assisti no Galpão Cine-Horto chamada "Nú de mim mesmo". A encenação foi para mim uma experiência teatral maravilhosa, intensa, verdadeira e tocante. Após minha vivência sublime, naquela noite de 21 de maio de 2010 procurei saber um pouco mais sobre aqueles magníficos intérpretes. Foi quando ao enviar um elogio aos atores, recebi uma resposta de Adriano que muito gentilmente me adicionou entre seus amigos no Facebook. Ao navegar em seu perfil descobri que ele tinha um blog: http://blogdebotas.blogspot.com. Lá constantemente leio coisas muito bacanas que mexem muito com minha imaginação e que com certeza modificam um pouco da minha percepção das coisas. Posto abaixo um pequeno texto extraído do blog, chamado: "Tristessa".

não mais palavras
ações
não o que pensamos
tampouco o que sentimos
apenas o que fazemos
então poderão sim julgar-nos
cientes de que tudo o que em nós condenaram
acha-se escondido em seus porões
quando não flutuando claro
diante de seus inocentes olhos
que a terra há de comer

Obrigado Garib, por suas palavras, sua gentileza e sua humanidade...

Blogueiro de primeira viagem

Eis-me aqui, sentado em frente ao PC, tentando postar meu primeiro comentário neste blog criado em 2008 e só agora revisitado e deveras iniciado. Talvez o momento seja mais propício, talvez eu agora esteja um pouco menos tímido, mais ousado, mais confiante para finalmente dar o pontapé inicial. Penso que nada melhor do que um pequeno recado de boas vindas. Espero com este espaço, mostrar um pouco sobre minhas verdades, falar de meus anseios, gostos, interesses, dores. Despertar discussões, dúvidas, reflexões... Almejo muito talvez! Mas ainda sim quero tentar, buscando com isto me arriscar, dando a cara a tapa, percebendo no dia a dia minhas possibilidades de comunicação.Farei deste espaço uma pequena extensão de mim mesmo, um lugar onde aquilo que importa (ou tem importado), se manifeste em palavras e imagens. Aqui estarão presentes textos por mim produzidos, mas muita coisa que li, que vi e que de alguma forma mexeu com minhas entranhas, que me tocaram, sutil ou de maneira impactante. Tentarei sempre citar a fonte onde foram garimpadas minhas pérolas, para dar créditos a quem realmente os merece.Um abraço carinhoso a todos os meus queridos e sejam muitíssimo bem vindos!